sexta-feira, 12 de março de 2021

O vazio

A jornada literária é uma incógnita atormentadora. Quanto mais me aprofundo nela mais longe pareço estar de qualquer compreensão sobre a própria literatura. Já fazem pelo menos 7 anos de indas e vindas, de mim para a literatura, da literatura para outras preocupações. Eu não sei exatamente o que acontece comigo.


Veja, o primeiro livro que li que por conta própria e fui até o fim foi Menino de Engenho, numas férias no sítio do meu avô; devia eu ter entre 10 e 12 anos. Tive uma ou outra leitura durante meus anos colegiais, mais do que os outros alunos da minha idade liam (ou seja, nada), menos do que a maioria dos melhores alunos do colégio. Até hoje eu leio pouco, em termos de quantidade de páginas. Provavelmente o ponto de virada foi por volta dos 15 anos quando li Divina Comédia; e foi mais ou menos por aí que comecei a criar blogues para expor meus poemas e reflexões do óbvio (queimaria todos os meus cadernos de poesia e excluiria todas as postagens mais tarde). Até então, nunca tinha visto tamanha demonstração da sutileza humana; Dante tem seu mérito. Depois, Guerra e Paz viria a ressignificar meus parâmetros por volta dos 18 anos enquanto cursava engenharia.



Mas se era verdade que tinha alguma inclinação literária e se gostava de rabiscar uns versos, também era verdade que me dedicava boa parte do tempo estudando matemática. Novamente eu insisto que era se muito um bom aluno: era excelente apenas em matemática. Mesmo língua portuguesa era pra mim um inferno na terra: apesar de ser excelente em interpretação de texto. Por conta disso; e de pressão por parte de pai; cursei 1 semestre de engenharia mecânica na UFPR. Larguei, fui procurar emprego. Depois entrei no curso de letras, também na Federal, e de certa forma senti estar entre semelhantes, entre pessoas que tratavam das literaturas com o mesmo esmero que eu. Pena que eu não poderia estar mais errado nesse mundo. A faculdade de letras está impregnada de arrogantes, falsos, hipócritas e ignorantes, sejam alunos, professores ou coordenadores. Impressionante é: mais até do que os cursos de exatas. Troquei de instituição, mas fiquei no mesmo curso, uma que fosse à distância.

O bom da faculdade à distância é que como ela é ridiculamente mais fácil do que a Federal sobra-me tempo para estudar as matérias que eu me interesso com a profundidade que eu gostaria no tempo que eu acho mais conveniente. Na verdade, o diploma é apenas um facilitador para conseguir um emprego melhor, mas o nível universitário é uma exigência ridícula e dispensável ao conhecimento verdadeiro e relevante.

Durante todo esse tempo, minha relação com a literatura foi intensa e conflituosa. Talvez pela minha ignorância ou falta de inteligência, a minha abordagem à literatura sempre teve grandes obstáculos. Apenas por exemplo, até hoje tenho dúvidas profundas sobre a própria definição de literatura. Isso é simplesmente ridículo! Quer dizer, qual é o sentido em sentir atração (e esse conceito descreve bem a minha relação com a literatura) pelo quê eu se quer sei descrever.

A minha posição filosófica, política e religiosa é definida pelo ceticismo com inclinações existencialistas, apesar de nunca ter tido um contado profundo com os pensadores dessa vertente filosófica ou qualquer estudo mais profundo na própria matéria filosófica.

Nesse momento em que escrevo, estou em uma fase de ruptura existencial e só escrevo devido a isso. Não porque gosto de escrever, mas porque se eu não escrever sinto que de alguma forma vou perder a minha consciência. Como uma estrela que implode em si mesma engolindo qualquer indício de que existira ali um equilíbrio entre as forças da gravidade e eletromagnética. Se a loucura é como buraco negro, eu sou, ainda, uma estrela, em um equilíbrio frágil entre a consciência da realidade e a dúvida dessa mesma consciência. É uma analogia horrível, eu sei; talvez mereça uma segunda explicação. A literatura é um vazio capaz de negar o vazio existencial, a falta de sentido da ficção que cancela-se com a falta de sentido da realidade, atenuando a dúvida. Veja, eu admiro muito a razão, não a nego; é incrível o quão longe e o quão bem a matemática, a maior e melhor aplicação da razão que eu tenho notícia, é capaz de descrever a realidade. Mas a realidade não se deixa ser simplificada em axiomas e raciocínios capazes de extinguir os paradoxos, as inconsistências e as contradições. Quanto mais se aperta a realidade com a razão mais a realidade aperta nossos raciocínios ao quadrado.

Todo o pensamento, toda a lógica, todo o conhecimento, baseia-se na língua, que por sua vez fundamenta-se na linguagem, que por último repousa na consciência. Poderá qualquer pessoa mais ávida às negações dessa percepção dizer que eu estou errado e que a realidade independe à consciência. Porém só temos acesso à realidade através da consciência. Consciência que segundo a razão só existe porque a realidade existe. Não apenas isso: a realidade de quando eu era criança era uma completamente diferente da minha realidade hoje. A consciência define a realidade, assim como a consciência é definida pela realidade. Da minha perspectiva, o mundo existe há 22 anos; 21 na verdade, uma vez que minha lembrança mais antiga é de quando tinha 1 ano mais ou menos, com a imprecisão de uns 4 meses. Porém o mundo hoje parece-me diferente de quando eu tinha 18, 15, 10 ou 5. De fato, cada crise existencial mudou o meu referencial e a minha abordagem da realidade. Esse é um bom paradoxo para desperdiçar uma vida tentando resolver. Mais até do que o paradoxo da informação em buracos negros e em última escala do universo em si, que parece ter ambivalências dependendo do referencial igualmente. Já se perguntou quão estranho é que da perspectiva de um esquizofrênico sua esquizofrenia é tão real quanto... a realidade? Ou então, como pode você durante um sonho não ter a percepção de estar... sonhando?

Eu percebi que ao dormir de costas, há um tempo, eu consigo aumentar as minhas chances de lembrar dos meus sonhos. E que mentalizando alguns gatilhos eu conseguia durante um ou outro sonho quebrar a dimensão dessa existência à parte de mim, mas que integra e se baseia nas minhas experiências. Uma boa parte dos sonhos são pesadelos, coisas exageradas e elementos impossíveis de se conectar conectando-se; o que me faz pensar haver alguma ligação entre sonhos e memórias, uma vez que técnicas de memorização se utilizam de elementos parecidos como associação ridícula e exagerada do objeto a ser memorizado. Não vou dizer que vivemos em uma Matrix, mas talvez vivamos em várias. Ou antes, várias realidades vivem em nós.

Nesse ponto do texto, devo avisar, se já não tenha me feito perceber, que realmente tenho a absoluta certeza de não ter nenhuma certeza sobre as certezas da realidade. E esse texto é uma síntese de minha congestão mental do momento.

Bem, desde meus 10 anos eu sempre estive à beira de um colapso de consciência. Os meus motivos são 2: a desintegração familiar e a minha insegurança comigo mesmo. Sempre fui assustadoramente consciente de mim mesmo. Pensando bem isso deveria ser uma heresia às leis da natureza.

Voltando à epistemologia das coisas, após algum tempo cheguei a essa conclusão de que tudo se resume em dois grupos de axiomas, dois fundamentos; o primeiro é que a realidade existe independentemente da consciência e o segundo é que a realidade é um produto da consciência. Por vezes a realidade é chamada de "verdade," mas isso não faz muito sentido uma vez que verdade é um atributo, um valor, sobre afirmações em um conjunto de princípios a partir de um conjunto de regras; em um universo ficcional a "verdade" é definida diferentemente do que em um universo "real," mas esse outro problema eu quero aprofundar mais a frente pelo bem da organização dos pensamentos. Por mais que eu tentei, nunca consegui através da razão chegar em um desempate. Isto é, se fosse para eu ser parcial e escolher uma das duas a partir da minha história de vida, percepções da minha própria realidade, etc., eu escolheria a que diz que a realidade é um produto da consciência. Porém, isso seria meramente aleatório, bastaria que eu tivesse tido outra perspectiva de vida que poderia escolher a outra opção, não apenas teria: assim foi dos 15 aos 18 anos (e essa é uma das complicações em ser muito consciente sobre si e os valores que se fundamentam). Porém, não é o tipo de resposta que eu procuro, considerar ou justificar a minha parcialidade com "é porque eu acho que é assim e isto basta." Agora, temos um problema... ao descartar a minha parcialidade e abordar a questão cruamente chego a conclusão de que é impossível através da lógica (da razão) justificar um ou outro. Ambos levam a paradoxos, ambos levam a inconsistências, ambos levam a contradições. Ambas as posições têm argumentos fortes para sustentarem-se. E isso não faz nenhum sentido. É irritante na verdade.

É irritante porque essa questão basicamente define, ou pelo menos pode definir, todo o resto. Ética, política, conhecimento, existência, verdade, literatura...

Então, eu desisti dessa estupidez de tentar resolver com a razão já que a razão não parecia depender de uma ou outra para funcionar, para existir perante ao maldito ceticismo. Não sei se se é capaz de existir algo como intuição não parcial, mas através disso eu abordei o mesmo problema. Intuição existe a partir da parcialidade, do contexto existencial, da história de vida, então por definição toda intuição é parcial. Uma intuição não parcial é uma consideração a partir de vários pontos de vistas parciais; ou algo assim. O problema foi redefinido em termos de linguagem. Como definir realidade, como definir ficção e literatura, como definir definição. E olha, essa nova abordagem foi outro chute no saco, sinceramente. Eu vou simplificar a história e dizer que nesses últimos dias eu tive vontade de bater a minha cabeça da parede até fazer a parede estourar os meus miolos de tanta raiva e angústia que passei. Como pode eu ser burro e ignorante a ponto de se quer conseguir definir uma simples ideia como a ideia de uma mesa sem referenciar a ideia através da mesma ideia em outras palavras?!
 

Veja, matematicamente, eu definiria linha da seguinte forma: uma linha é formada por pontos tal que [qualquer um desses pontos seja adjacente somente a outros dois pontos (uma circunferência ou uma linha infinita)] ou que [qualquer um desses pontos seja adjacente somente a outros dois pontos, exceto dois pontos que são adjacentes a apenas um (uma linha finita, contínua, com cada um dos dois pontos que têm apenas outro ponto vizinho sendo uma das pontas)]. Entre colchetes temos a descrição de um conjunto de forma que a soma desses dois conjuntos compõem o significado de "linha." A partir da linha definimos reta, plano, espaço tridimensional e de n-dimensões tal que n pertença ao conjunto dos Reais (se bem que seria interessante imaginar dimensões em Complexos e adiante)..., enfim, a partir de uns poucos conceitos constrói-se toda a matemática. Seria possível fazer o mesmo com o resto da linguagem humana? Linguagem, aqui num sentido abstrato de línguas e não como um sentido abstrato de língua. Bem, eu tentei durante algum tempo fazer uma generalização do Universo de Von Neumann (UVN). E daí se explica a vontade de desfazer meu cérebro na parede. Vou resumir novamente e dizer que até é possível fazer algo análogo ao UVN. Defini um vazio, que eu denominei objeto, propus alguns axiomas e montei uma teoria da informação a partir da teoria dos conjuntos, teoria dos grafos e topografia, para modelar a transformação, a densidade e o fluxo da informação em níveis. Eu francamente cheguei a um ponto onde muito provavelmente vou passar o resto da minha vida nessa maldita ideia se eu continuar nesse caminho. No fim não é nem que eu não saiba bem o suficiente de matemática para aprofundar essa abordagem, embora concluí isso também: eu não sei nada comparado o que eu precisaria saber para continuar esse caminho. E ainda assim, não pude se quer determinar se tal abordagem poderia ter inconsistências. O que beira o ridículo.

Diante desse impasse, eu francamente desisti. Pro inferno com essas malditas teorias. Pro inferno com as matemáticas. Pro inferno com a realidade.

A literatura a partir de hoje sou eu.

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