Toda obra literária é passível de análise e também de crítica. E, apesar de não sabermos definir literatura em sua totalidade, a análise depende diretamente da definição de literatura e a crítica depende diretamente da análise. Mesmo assim, literatura, análise e crítica existem, seja de forma consciente, seja de forma instintiva. E todo o leitor reconhece literatura, analisa e critica, seja passiva ou ativamente.
Eu não sou um crítico de profissão, um analista, ou teórico literário, e tão pouco literato. Eu sou sobretudo um leitor que ama literatura. Mas veja, não do tipo que ama cegamente e é subjugado por esse amor. Pois esse amor é aquilo que se aproxima do fanatismo, da ignorância e do desconhecimento embutido na estupidez rasa e idealista. O meu amor à literatura é o amor baseado em respeito, parcimônia e sabedoria. Isso quer dizer que eu preciso, enquanto leitor e amante, dar o respeito ao ato da leitura e esperar da obra que leio o mesmo respeito a esse ato. Mesmo que eu não saiba colocar em palavras o que literatura quer dizer (ou antes que eu jamais fiquei satisfeito com todas as definições que eu já tentei elaborar ou foi elaborada por outros), qualquer obra que se pretenda a ser literatura deve respeito e satisfação a mim, o leitor, e à literatura e sua tradição. Qualquer obra que menospreze (1) a si mesma (ou seja, sua própria proposta), (2) o leitor e (3) a própria literatura e sua tradição, não valerá a pena: não terá valor literário e eu tratarei como se ela fosse o que ela realmente é; um monte de papel e tinta desperdiçado. Não será eu quem definirá literatura, não será eu quem aceitará qualquer coisa que me tentem forçar goela abaixo como literatura.
E afinal, quem nunca ouviu alguém dizer da importância da leitura ou dizendo que leu 3,14159265(…) livros nos últimos 5 dias e que o Brasil não lê e mais isto ou aquilo, povo sem cultura e etc. Bem, eu desacredito em uma agenda ou um propósito literário; coisas como: trazer reflexões e fazer “críticas sociais fodas” à nossa realidade, ou que toda obra precisa trazer uma moral ou um ensinamento de cunho cívico, etc. e etc. Enquanto leitores, ponhamos nossas ideologias políticas à parte. Eu tenho por intuição que a literatura humaniza o ser humano. E humaniza não porque é esse o propósito dela, mas sim porque ao não nos humanizarmos ao nos deparar com o texto literário a literatura não acontece. Isso não significa que sejamos ingênuos enquanto leitores. Muitos se fazem da literatura para usá-la como meio de influência partidária, motivo pelo qual a crítica é tão necessária hoje em dia. A crítica contextualiza o texto na realidade das coisas. A análise contextualiza o texto na realidade literária.
Mas então, cadê os críticos, afinal de contas? Eu enquanto estudante de letras sei: nas masmorras inalcançáveis das universidades. Vez ou outra, quem se aventura através dos tortuosos e perigosos caminhos universitários consegue atingir os oráculos literatos que se comunicam através da ambiguidade, do relativismo e da transcendentalidade; isto é, falam suas opiniões de modo velado cheio de rebusques linguísticos desnecessários, sempre colocando outros para falarem aquilo que acham fora de contexto e chegando à conclusão de que na verdade não chegaram a nenhuma conclusão e que não se sabe sequer se é possível chegar a qualquer conclusão a respeito. A universidade negou e se escondeu, se acovardou, de si enquanto leitora, portanto, desrespeitou a própria literatura. Um crítico que desrespeita a si mesmo enquanto leitor é um basbaque, apenas. Um profissional da carochinha. Eis aí o crítico contemporâneo da sociedade brasileira no século XXI.
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