quinta-feira, 15 de abril de 2021

100 Segredos das pessoas felizes - David Niven

Ontem eu comecei a ler um dos livros que estavam na minha lista de leitura e, por ser um livro curto, acabou que foi mais tranquilo do que eu achei que fosse. O livro é curto, em menos de 3 horas dá pra ler tranquilamente. Tranquilo aqui, não se engane, refere-se a ler o livro em menos de 3 horas, porque parece que perdi algumas semanas em 3 horas. Apesar de tudo, eu até então nunca tive essa angústia em querer expor minhas impressões, desse jeito. E, olha, a sensação que eu tive foi a de ter jogado 30 reais no lixo. Se eu tivesse pego esses mesmos 30 reais e colocado 6L de gasolina na minha moto e ter ido dar um rolê na serra do mar teria sido mais produtivo do que comprar esse livro. Eu acho que esse livro vale, sendo bem sincero, uns R$ 2,50; sendo bem generoso com ele.

A lição que eu aprendi foi que não é porque um livro tem boas vendas que ele necessariamente é bom. Não estou dizendo que todos os mais vendidos sejam ruins, mas que uma coisa não tem a ver com a outra. E esse relato meu aqui, espero eu, é para que você não gaste o seu dinheiro com um livro que não vale a pena. Porque apesar de ser defendido por alguns, com unhas e dentes inclusive, não é porque um livro é livro que ele está acima do bem e do mal, do belo e do vulgar. E eu acredito que nós, leitores, precisamos tocar nessa ferida, nesse elefante no meio da sala que ninguém parece querer notar.

Eu acredito que muitos dos problemas que a sociedade leitora do nosso país enfrenta é em parte pela covardia dos críticos literários, em parte pelo descaso dos acadêmicos de letras que desprezam a nós leitores. Sabe aquele artigo de crítica, que você lê 15 páginas sobre a obra cheio de referências, conceitualizações, relativizações, e que chega no fim do artigo e não deu pra saber se o crítico achava bom, ruim, ou qualquer ponto entre esses dois polos? Pois é, eu tenho a impressão de que esses acadêmicos me acham otário, do mesmo modo que “críticos” de prefácio que acham qualquer livro duvidoso, cujo um escritor de fanfic seria capaz de fazer melhor, sendo apresentados como um novo Balzac ou Cervantes. Então ultimamente eu tenho ficado meio chateado mesmo. Deve ser a idade.

A obra, um prefácio


Pra começar, o título do livro nos gera certa expectativa, enquanto leitores. Provavelmente quem venha a comprar o livro esperando “100 segredos da felicidade” ficará decepcionado. Parece-me, na verdade, um livro que pende mais para “100 lugares comuns que pessoas experientes reconhecem sobre a felicidade” do que qualquer outra coisa. Em nenhum momento o livro deixa claro qual é a sua proposta exatamente, o que pode me fazer injusto. Claro, até tem aquela nota de prefácio que tenta convencer ser uma espécie de divulgação científica sobre felicidade; mas que não convence enquanto desenvolvemos a leitura.

Então, eu descreveria o livro da seguinte forma: um livro sobre felicidade que tenta divulgar “verdades” científicas de uma forma tão simplificada que chega a ofender a capacidade intelectual de quem o lê de tantas formas quanto possível. Veja, ao longo do livro cada vez mais vai dando aquela sensação de desprezo; naquele sentido de estar decodificando as palavras, mas estar pensando em qualquer outra coisa; ao invés do que está sendo dito. A gente acaba perdendo o engajamento na leitura. O primeiro motivo, dito anteriormente, é por subestimar a capacidade do leitor. O segundo é a falta de uma construção narrativa que faça, pelo menos, minimizar a pergunta “por que diabos isso que eu estou lendo é relevante?” ―e aqui não quero dizer que o conteúdo seja irrelevante necessariamente, todo o conteúdo é lá mal-mal exposto e poderia parecer mais apetecível sob outra estratégia de exposição, com outros termos, outras metáforas, outros meios mais interessantes. É repetitiva e previsível a estrutura textual e, na maioria das vezes, até o conteúdo chega a ser repetitivo. Até as historinhas ao longo de cada segredo, lá pela metade do livro, param de gerar interesse. Parece que na cabeça do autor passou o seguinte monólogo antes de escrever o livro:

“Olha, quer saber?, com esse mercado literário está implorando por livros de autoajuda, então, deixa eu juntar aqui uns 12 segredos para ser feliz… hum, não, espera! 12 segredos não daria um volume capaz de fazer ostentar quem estiver lendo ele, então pensando bem acho que uns 80 segredos deve dar um volume bom de páginas. Se bem que… o que são 100 segredos pra quem já ia fazer 80 né?! É só pegar os 12 segredos e deixar eles meio diferentes entre si, abordando os mesmos segredos sob outro aspecto, e olha lá, está feito um best seller.”

E prevendo esse sentimento negativo ao longo do livro, o autor:

a) Revê sua estratégia narrativa para dizer aquilo que ele quer dizer.
b) Adverte o leitor para ler à prestação os famigerados “segredos?”

Obviamente, a última opção.

Outro ponto negativo do livro são as premissas com as quais o autor ora tenta fundamentar ora tenta engajar o leitor para as ideias que serão expostas em seguida. Já no prefácio da obra, começa com “Não existe a menor dúvida: ser feliz é o desejo de todo ser humano.” Olha, eu não sou filósofo, mas nem preciso ser para perceber à minha volta que nem de longe parece ser essa a realidade das coisas. Então deixa eu te perguntar: porque começar o prefácio com essa frase?

a) Para dar efeito ou ênfase através de uma máxima que complementa ou será complementar a um contexto narrativo relevante.
b) Para constatar um estado da realidade como sendo verdade.
c) Para meditar sobre o sentido da vida.
d) Para parecer dizer, de forma quase arrogante, algo profundo através de palavras rasas e genéricas tentando justificar mais a frente todas as páginas do livro que virão a seguir.

Da primeira vez que eu li o livro, na minha boa vontade, eu responderia marcando a alternativa a), já da segunda leitura em diante, eu marco, sublinho e passo o marca texto na alternativa d).

O narrador parece confundir a todo momento, ao longo do livro, felicidade com alegria, bem-estar, paz de espírito, disposição física, otimismo… isto é, para o narrador felicidade parece ser qualquer sentimento positivo e tristeza qualquer sentimento negativo.

Logo a seguir temos “Mas o que é ser feliz e como fazer para atingir a felicidade com que todos sonhamos?” e então você esperará que após o prefácio vai ter alguma discussão sobre o que é felicidade e aí então como experienciar essa felicidade, não é?! Bem, aparentemente, não.

E então você pode estar pensando: beleza, mas qual é o ponto?! É só a porcaria de um prefácio mal feito. E vou ser obrigado a concordar com você, exceto que, além disso, prenuncia todo o resto do livro. “Pau que nasce torto…” Um livro com um bom prefácio, uma boa capa e um bom título não necessariamente significam um bom livro, mas até hoje eu jamais vi um livro que não prestasse o devido esmero e atenção a esses pontos básicos que fosse minimamente um livro decente ou me surpreendesse ao longo da leitura.

No fim, parece uma introdução de um tcc de uma uniesquina na qual o aluno David sabe que fez um trabalho nas coxas e tentou tirar uma média com o professor Harry.

Mas, pensei eu na minha primeira leitura, tudo bem, vou fingir que não li tudo isso. Deixa eu começar com a alma limpa o livro.

A introdução


Aqui o narrador começa contando sobre a motivação e objetivo que ele quer alcançar através da história do professor extraordinário que interviu na vida de alguém e inspirou, aconselhou... e, olha, francamente, ninguém liga. Porquê ao invés de contar essa historinha o narrador não discutiu aquilo que ele tinha levantado no prefácio? Ou então pelo menos explorado mais profundamente isso. Nós lemos a introdução toda e ainda não sei qual é a dessa felicidade que o narrador quer explorar. Veja, eu não estou pedindo uma dissertação definindo felicidade através de uma formalização filosófica. Eu, enquanto leitor, só não quero ficar na obviedade da palavra, no senso comum; porque se de fato a felicidade é objeto de desejo de cada ser humano que já esteve, está e vai estar sobre a face dessa terra, como se é afirmado, e ainda que não fosse, sendo o objeto abordado ao longo de toda a obra e a proposta é deixar claro o que supostamente os artigos acadêmicos não deixam… …. Pelo menos abre um pouco a discussão, porque eu aposto que ao adentrar nos artigos que o narrador vai tentar fundamentar a obra toda, cada artigo terá um aspecto ou um enfoque distinto do que foi considerado como felicidade e se nós pararmos pra pensar que alguns desses estudos foram feitos em idiomas diferentes, culturas diferentes, regiões diferentes é de se esperar que a felicidade será tratada, interpretada e entendida diferentemente. Eu fico chateado porque esse tema é um prato cheio para se explorar de formas que enriqueçam a experiência da leitura e ao ver todo esse potencial sendo tratado como um panfleto, enquanto leitor, eu me sinto subestimado.

Por fim, chega a ser um pouco cômico o tom da introdução; mas já adianto que está presente em todo o livro; porque claramente o narrador leva o seu papel inspiracional e reflexivo longe demais. A ideia que o narrador quer passar é a ideia do monge sábio, mítico, conselheiro... uma espécie de Gandalf da autoajuda. Nesse caso, em específico, a introdução poderia ser um pouco mais "despersonalizada''. Para o que o livro se propõe a ser, ainda que passe longe, mas bem longe disso, o narrador poderia ter começado o texto de uma forma mais abstrata, como nas introduções temáticas em livros didáticos, e, ao final da introdução, sucintamente, explorar essa personificação da motivação e justificativa da obra. Essa estratégia deixaria a leitura mais equilibrada trazendo um tom mais sóbrio para a sua exposição temática.

Aí então, pela segunda vez, eu tentei não deixar a minha primeira impressão se abater sobre o resto da obra que estava por vir.

O desenvolvimento


Todos os segredos da felicidade que o autor explora seguem o seguinte modelo.

  • Título, na imensa maioria das vezes auto explicativo e quando não é, é porque o tema é repetido: é o mesmo segredo visto de um ponto de vista diferente.
  • Algumas linhas tentando explorar o título.
  • Uma historinha que exemplifica o título, na maioria das vezes brega, clichê, idealizada, plana e muitas vezes desnecessária.
  • E por fim uma pincelada de estudos científicos, para tentar justificar a parte “científica” da coisa.
Pra não perder tempo, os segredos, em resumo, os “100 segredos” podem ser colocado nos seguintes blocos:

  1. Procure interpretar as coisas de maneira positiva, a felicidade é questão de perspectiva. A vida vai ficar pior se você pensar demais, as vezes ser ingênuo traz felicidade e, ainda que não traga, encare isso com otimismo.
  2. Encare novos desafios, não desista facilmente nem pare no tempo, porém não insista no impossível e tome cuidado para se acomodar no possível.
  3. Conheça e acredite em si mesmo, de forma realista, seja quem você é, fazendo aquilo que expressa você no seu sentido da vida. E se isso falhar iluda sobre si mesmo de forma positiva de forma que de qualquer modo nem o tempo nem a morte irá te abalar.
  4. Riqueza não é sinônimo de felicidade, mas pobreza e mesquinhez também não.
  5. Tenha engajamento social de forma positiva e construtiva.
  6. Não seja cuzão.
  7. Sorria, demonstre alegria e procure se divertir.
  8. Procure se alienar da realidade e de tudo que possa provocar sensações e sentimentos negativos.
  9. Tenha paciência e parcimônia com a vida e com as coisas, evitando também exageros e obsessões.
  10. Seja religioso.
  11. Procure registrar aquilo que você quer ter mais controle escrevendo com papel e caneta.
  12. Tenha rotina, cerque-se de perfumes agradáveis, ouça música, torça para esportes coletivos, pratique exercícios, durma bem e alimente-se bem.
Se essa obra não pretendesse ser o que ela tenta ser, se copiasse o método confucionista, p. ex., em sua forma poética, de expor o conteúdo a ser aconselhado, a “moral da história'', eu acho que o livro seria um pouco menos péssimo. E aqui eu já vou concluindo as minhas impressões sobre o livro, porque é isso, depois do centésimo segredo não tem conclusão o livro. O que inclusive, levando em conta o conjunto do todo, é algo até bom.

Impressão final

 
No fim, “100 segredos das pessoas felizes” é um livro cheio de lugares comuns, desenvolvimento previsível, pouco instigante e contraditório em muitas partes, por não ter um cuidado em alinhar melhor a narrativa. Para que essas contradições se resolvam precisa-se de muita, mas muita, boa vontade do leitor. A narrativa não é nem relevante enquanto obra de divulgação científica, nem enquanto obra literária, sendo talvez, na maior boa vontade do mundo, um livro medíocre de autoajuda. Vale a pena apenas como curiosidade, e isso vai depender muito do preço que ele estiver custando. Você provavelmente achará coisa melhor na internet de graça. Eu diria que esse livro teria algum remoto valor de indicação ou de referenciação para os estudos nos quais ele se baseia, mas olha… Nem as referências científicas ele traz de uma forma organizada e decente. Então no final das contas é mais fácil ir no Google acadêmico ou em revistas e periódicos de psicologia, filosofia e antropologia e procurar pelo tema.

O livro não é completamente descartável, certamente ele incita reflexões interessantes, mas o leitor precisa ter muita boa vontade com o livro. Coisa que, como dá pra perceber, eu perdi depois de algumas páginas de indigestão literária.

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