O objetivo dessa dissertação não é defender nem tentar influenciar propostas ideológicas, políticas, judiciais ou questões de matrimônio. (sarcasmo) Quero apenas refletir sob os aspectos que me fizeram sair de um em detrimento do outro.
Faltam poucos meses para igualar o tempo que passei em EAD e Presencial em Letras. E, analisando minha trajetória, acredito que a revolução tecnológica possibilitou que pessoas como eu pudessem se tornarem mais livres das burocracias e desperdícios de tempo que ocorrem nas presencialidades do ensino. O que eu quero dizer com isso?
Uma comparação direta: contextos
Cursei 2 anos de Letras: português-inglês na UFPR. Estou a 1,5 anos em Licenciatura em Letras, EAD, na Uninter.
Na Federal, considero que você estará exposto e terá acesso facilitado a profissionais e gente que entende do assunto. Além de possibilitar um networking importante caso esteja pensando em entrar no mercado de trabalho ou melhorar seu currículo (seja para trabalhar em uma editora, por exemplo); mas, claro, Letras é mais indiferente nesse aspecto. Quando cursava eng. mec., isso demonstrou-se realmente um ponto positivo. Já no EAD, essa possibilidade é mais restritiva.
Veja, ainda haverá promoção de eventos e palestras, além de outros meios de interação e expansão de contatos profissionais, porém não na mesma proporção de uma universidade federal. Como na área de linguagens e literaturas isso não é exatamente algo tão relevante assim, o peso desse ponto negativo não foi de muita importância para mim.
Outro aspecto a ser considerado é a questão do aprendizado. Conheci pessoas que só conseguem aprender e fixar o conteúdo através da explicação com o professor, tirando dúvidas, recebendo auxílio... Não que no EAD não existirá um tutor te auxiliando e sanando todas as suas dúvidas. Mas refiro-me aqui àqueles que ficam dispersos sem uma autoridade dizendo o que deve e o que não deve ser feito, estudado, etc.
Ainda no mérito do parágrafo acima cabe uma ressalva. Dentro do EAD, provavelmente você tirará suas dúvidas através de um email ou formulário e isso é extremamente positivo. Pois ao (re)formular sua pergunta, muitas vezes você mesmo irá se deparar com a irrelevância da questão ante um problema mais elementar. Isto é, ao perguntar sobre um fato específico, você esbarrará em um fato mais geral. E o motivo é simples: tempo. Numa sala de aula, muitas vezes você acaba tendo algumas dúvidas, as faz, o professor responde e é isso. Mas, ao fazer uma pergunta através de um email, por exemplo, você precisa descrever da melhor maneira possível o ponto aonde você está com dúvidas e nesse escreve e reescreve muitas vezes você percebe ligações, que geralmente seriam imperceptíveis na instantaneidade de uma sala de aula. Outro motivo é que, com o tempo disponível e a internet, perguntas mais simples são facilmente sanadas, bastando ir em um buscador de sua preferência e procurando sobre o assunto. Então, somente perguntas de difícil acesso ou com muito pouco discutidas serão direcionadas ao tutor. Isso agiliza e otimiza o ensino, de um modo em geral.
Continuando na linha anterior: a descentralização de informação. Na sala de aula, que ainda hoje geralmente se tenha restrições de uso de celular, você confia, por bem ou por mal, que o seu professor sabe do que está falando. No EAD, se você não está seguro das informações ali passadas ou se você não acha o material proposto, a bibliografia, adequada você vai num Google da vida e resolve seu problema. Se você tiver muito tempo livre e disposição, você tem como ter acesso aos artigos e discussões nos quais os materiais didáticos foram baseados para serem elaborados.
Portanto, no EAD, a responsabilidade do seu fracasso ou sucesso de aprendizagem depende inteiramente de VOCÊ, enquanto que no ensino presencial você está mais fadado ao que o professor projeta na proposta da disciplina.
Obviamente que, o que estou imaginando aqui, é baseado em minhas experiências pessoais. Conheci pessoas que faziam presencialmente as disciplinas X e Y, e ao chegarem em casa pesquisavam e se inteiravam nas bases dessas disciplinas. Porém, para mim, tempo sempre foi algo a ser otimizado. E de 4 horas numa sala de aula sempre foi, em média, 2h de aula e o restante com chamadas, problemas técnicos em configurar o computador para passar os slides ou então aqueles malditos projetores, alunos querendo dar uma de sabichão e travando a aula, entre outros... Para, além disso, ler e realizar tarefas de fixação em casa. Se levarmos em conta mais o deslocamento até a faculdade...
A época em que eu ia para a UFPR eu gastava 7 horas; 5h de aula que eram na verdade 2h30min~3h, mais 2h de ida e volta; além do transporte que mensalmente somava algo próximo de 200 reais (na época não tão inflacionados como hoje em dia). Desde o Ensino Médio eu já era autodidata e isso pesou muito para a minha decisão. Mas acho que isso merece um capítulo específico.
Desafios e benefícios: perfis de aprendizagem
Algumas pessoas fixam melhor o conteúdo através de conteúdos audiovisuais (interativos), outras através da explicação, outras através de texto e, também, aquelas que aprendem melhor resolvendo exercícios. Eu me identifico nas duas últimas, sobretudo no texto.
O meu método de aprendizagem consiste em reescrever o conteúdo a minha maneira, seja através de crítica, resumo, fichamento, análise, resenha, paródia... Eu preciso remodelar a informação para que eu consiga retê-la. Apesar de ser algo que demanda tempo e esforço ativo em aprender, eu consigo compreender melhor e de modo mais aprofundado aquilo que considero como relevante. Isso, dentro da área de humanas. Já na área de exatas, minha principal estratégia de absorção é na força bruta resolvendo exercícios. Se for algo mais esotérico, daí então numa remodelagem imaginativa, criando cenários e "comendo pelas beiradas" o objeto ou a matéria a ser estudada.
O meu perfil de aprendizagem, portanto, se beneficia em um contexto mais solitário e que exige proatividade por parte do estudante. Outros aspectos, como por exemplo dominar bem a tecnologia e saber como e onde pesquisar aquilo que se necessita, também ajudam bastante. Seja por sorte ou destino ou necessidade, utilizar os recursos do Google, Bing, sites que reúnam artigos e periódicos e, sobretudo, não se perder na vastidão de materiais sobre um mesmo tema; todos os estudantes EAD eventualmente devem aprender a dominar precocemente. (Esse "devem" indica uma necessidade e não uma realidade constatada)
O estudante, porém, que sai do ensino presencial para o EAD buscando comodidades e facilidades, por ser "mais fácil" e "exigir menos," certamente encontrará o que procura. E não que as aulas de uma UF sejam mais exigente para com seus alunos. Em geral, o que acontece é que o professor doutor pica das galáxias concursado há 67 anos e contando pouco se importa com o aluno. Então ele dá o conteúdo, os exercícios e a prova. Se o professor for benevolente um trabalhinho para complementar a nota.
Na verdade, tive uma professora de Processos Químicos (eng. mec.) que nem aula dava. Ela montava grupos de 8 pessoas e cada grupo apresentava um tópico da ementa e no final tinha uma prova que avaliava o conhecimento adquirido das apresentações. Ou um professor de Teoria da Literatura III que dava aula e arregaçava nas provas, onde a maior nota da sala era no máximo um 6. Por essas e outras; e se você desse o azar de cair em um professor carrasco desses e reprovasse; na melhor das hipóteses você atrasa um ano da sua graduação. Veteranos do quarto ano fazendo as aulas iniciais junto com calouros não é algo muito raro de se ver em exatas, onde esse tipo de professor é mais regra do que exceção. Em humanas é mais tranquilo, faz-se o primeiro ano junto com veteranos do segundo ano.
Mas tive excelentes professores na UFPR, no geral. Na Uninter, possa ser que eu tenha excelentes professores também, mas a verdade é que eu não assisto as aulas e conteúdos audiovisuais, como slides, palestras..., apenas olho a ementa, referências e livros base, os estudo e faço as atividades que preciso fazer. Das matérias que formam o profissional de letras, conheço todas, mas, felizmente, consigo me dedicar àquelas que eu realmente tenho interesse (literatura, por exemplo). Sintaxe é algo interessante, e. g., mas que eu definitivamente não me dedicaria mais do que o necessário para a obtenção do título acadêmico. Por outro lado, na federal, li pelo menos uns 5 livros avançados em sintaxe. Aparentemente minha professora era reconhecida internacionalmente em Gerativismo e esperava que fôssemos representantes da nova geração de linguistas nessa vertente. Noam Chomsky que me desculpe!
EAD exigirá uma excelente capacidade de organização e autocontrole. Você está assumindo para si a responsabilidade do seu ensino 100%. Então isso exigirá muita maturidade e estabilidade psicológica. Se você está incerto sobre qual área se especializar; por exemplo, sei que quero fazer engenharia, mas estou indeciso se mecânica ou se elétrica, ou sei que quero ser advogado, mas não sei se quero trabalhar na área empresarial, criminal ou acadêmica; é altamente recomendável ir para a presencialidade. Esse contato e aprofundamento maior em si em todas as matérias ajudará no desempate.
A conclusão que não conclui nada: não se preocupe
Eu se pudesse mandar uma mensagem ao meu próprio eu de 17 anos, desesperado, estudando 14h por dia para passar na Federal; mandaria:
"Você não precisa decidir o resto da sua vida agora, conheça mais a si mesmo e as coisas que deseja para si. Não se deixe levar pela opinião alheia, suas escolhas não devem ser terceirizadas. Leve o tempo necessário e viva seu tempo, ele não voltará, independentemente das escolhas que você faça. E se você escolher errado, não tem problema também. Não se desespere se descobrir que você foi uma mentira propagada por terceiros que você mesmo escolheu aceitar para si e acreditar. Se não descobrir, siga em frente. Se descobrir, procure a verdade com parcimônia e cautela, mas sem preciosismos. Não precisa se levar tão a sério. Amanhã, você poderá ter morrido."
Eu, hoje, me conheço bem o suficiente para não errar mais em ensino presencial. Exceto se for algo obrigatório pela matéria ou pela subsistência (não existe aprender a dirigir por EAD ou se depender de um curso presencial para obter um papelzinho colorido que atesta que eu participei de x número de horas para entregar na empresa donde tiro meu sustento).
Mas, eu talvez seja exceção. Ou talvez não. O importante é que com o advento da internet, existe mais opções. E com isso existe mais liberdade de escolha. Afinal, eu sou responsável por mim mesmo, desde a forma como eu estudo até o que eu estudo. A liberdade é uma ilusão? Que seja, me sinto confortável em evitar 2h de ônibus até o Centro de Curitiba.
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