A primeira vez que li a Batalha do Apocalipse, deveria eu ter por volta dos 13 anos. Agora, por volta dos 23 releio novamente.
Sob certo aspecto, é engraçado a releitura após muito tempo. Sob outro, é triste. E por último, é bom que assim seja.
É engraçado, porque, hoje, há muitos aspectos que já não lembro mais, apesar de lembrar do contexto e do fio da meada. É triste, porque isso significa que daqui 10 anos, provavelmente já não mais me lembrarei das aventuras de Ablon e Shamira. E por último, é bom porque a cada nova leitura nos aprofundamos (ou somos capazes disso se assim desejarmos) no enredo e no universo literário. A cada releitura, uma nova leitura.
O contexto do livro permeia o imaginário bíblico e mitológico. Uma espécie de Percy Jackson bíblico. Antes, um livro de aventura, permanece em vários lugares comuns; e isso não necessariamente é ruim. Pra quem inicia-se em literatura, ou para aqueles que vêm de uma ressaca estilo James Joyce ou Tolstoi, é uma leitura gostosa ainda que por vezes confusa caso o leitor esteja desatento.
Minha nota é 3, na escala 0-5. Isso não passa de uma percepção, mas que eu certamente voltaria a relê-lo; certamente é verdade. Isso porque, apesar de algumas inconsistências lógicas, o livro é bem construído e, creio eu, deve ter dado muito trabalho para ser concebido.
Em geral, algumas partes mereciam ser melhores explicadas ou aprofundadas enquanto outras eu acredito que poderiam ser encurtadas dramaticamente sem prejuízo para o enredo. Mas o que mais me incomoda e decepciona é a interface narrativa. Isso porque nos vais e vens, a percepção chega a ser de aleatoriedade. Ora continua-se o enredo principal, ora, do nada, volta-se no passado longínquo sem real necessidade.
Existe ainda uma superficialidade na construção dos personagens. Se em parte, Ablon é um anjo renegado e anjos não possuem sentimentos; a gente, leitores, entende. Agora, não faz muito sentido nas últimas páginas do livro, no clímax, despontar Ablon o sentimental, sem que haja devida construção narrativa. Mas não entendam mal, o trunfo funciona e no calor literário, você não vai ligar dada as proporções épicas das batalhas. Esse é apenas um detalhe que impede o livro de ser ótimo, colocando na categoria “aceitável, porém divertido.”
Um outro fator que quebra essa construção da progressão nas personalidades do arco principal é a ruptura cronológica do enredo. Começa na aurora de tudo, vai pro começo do meio, volta pro começo do começo, avança novamente, retrocede... e tudo se embrulha em cenários monumentais e aventuras secundárias que poderiam ser muito bem exploradas, mas que não são e se perdem como justificativa secundária para complementar aspectos irrelevantes da linha principal. O maior exemplo de potencial desperdiçado dentro do enredo é o da personagem Adnari. É frustante o papel de Adnari no embate final entre os magos, Shamira e Zamir. É frustrante o arco da comitiva grega, com Tales e seu filho Pólix. É frustrante o arco de Flor do Leste.
Na ânsia em se criar uma aventura cheia de batalhas e um tom épico, o livro almeja ser grande demais para páginas de menos para tom epopeico demais.
Em minha percepção, se o enredo fosse simplificado um pouco, humanizando o que tem de humano, personificando os personagens de acordo com suas respectivas funções literárias sem tanta soberba e solenidade, esse livro seria muito mais divertido. Ou então, que se mantivesse o ideal que está presente, mas que de fato cumprisse o que tenta ser. Uma espécie de Senhor dos Anéis da Terra Santa.
Ficam perguntas demais, algumas respostas surgem do nada e quase sempre caímos no velho protagonismo heroico odisseico. Ainda assim, tirando o que é ruim, o livro é bom. E se o leitor tiver boa vontade, divertido para se ler como um passatempo.
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