segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

O Morro dos Ventos Uivantes

O protagonista da história, Heatchcliff é ao mesmo tempo personagem principal e vilão da história. A história começa com ele e termina nele. É, sobretudo odiado por quem lê, mas que se não fosse por ele, não haveria o que ser lido.

Esse tipo de literatura, onde o vilão é o personagem principal (PP) é delicada e pode ser um fracasso a depender da evolução da história. Entretanto, a narrativa é satisfatoriamente bem construída a contextualizar a vilania de Heatchcliff. Há algumas perguntas que não são respondidas; como, quem é Heatchcliff e porque Earnshaw o resgatou, porque a irmã do sr. Edgar apaixonou-se por Heatchcliff e o que Heatchcliff fez durante o tempo que se ausentou do Morro dos Ventos Uivantes; mas, de modo geral, a trama é capaz de conduzir o leitor a exatamente aquilo que o leitor precisa saber. Se peca um pouco pela falta, não peca pelo excesso; não há desperdícios e enrolações durante o enredo.



Outro ponto, sem dúvida, é o papel do Narrador. Perdoai minha ignorância, mas não entendi até agora; agora que terminei de finalizar a primeira leitura do livro; o seu papel ou o porquê de ele estar presente no enredo. Minha próxima leitura merece uma melhor atenção sobre esse aspecto.

Diferentemente de Sherlock Holmes, o Sr. Lockwood não parece desempenhar qualquer papel relevante no enredo e se tivesse sido posto de lado e se se fosse narrada a história em terceira pessoa semi-onisciente, acredito eu mal-mal refletindo, não faria diferença. Acompanhamos a perspectiva de Nelly Dean durante toda a narrativa.

Aliás, pensando melhor, talvez ele desempenhe alguns papeis importantes sim. O primeiro é criar suspense no ato de narrar, mediante suas interrupções conforme a disponibilidade de Nelly a relatar. Segundo, Lockwood representa em partes nós, leitores, em nossa curiosidade sobre os aspectos da história geral contada por Nelly. Além disso, Lockwood parece ter um importante papel ao nos colocar em contato com a história em si, mas vou explicar melhor no próximo parágrafo.

O que eu quero dizer com isso é o seguinte: a história toda parece ser e é feita como se fosse um conto da carochinha. É, até certo ponto, intangível em si mesma, fechada. Lockwood quebra essa intangibilidade ao introduzir-se nela, tocar Heatchcliff, Catherine..., fazendo com que possamos estar mais próximos da linha principal de enredo. Lockwood é quem dita o enredo. E isso me faz questionar, agora enquanto escrevo essa linha, sobre quem de fato é o personagem principal. Mas não que a resposta para essa pergunta pudesse ter alguma influência sobre a percepção geral da história.

Mas temos aqui Nelly, Lockwood e Heatchcliff. Nelly é outra candidata excelente a personagem principal, ela por si é que testemunhou do começo ao fim a saga mitológica do Morro dos Ventos Uivantes. No processo de criação desta narrativa eu imagino que ela represente a autora, que se autodescreve através de Lockwood. Eu não pesquisei nada para realizar esta leitura inicial, tentando mantê-la a mais imaculada possível, e tudo que sei da autora é o que se contém dentro do próprio livro. Quem seria Lockwood, nessa análise, para a autora eu não chego a me arriscar a dar um palpite, quiçá os demais personagens.

Heatchcliff me parece ser a pura representação da parte instintiva dos seres humanos, animalesca, visceral, brutal, verdadeiramente crua e cruamente verdadeira; enquanto Catherine, a primeira, me parece ser a representação da paixão, do egoísmo romântico e da hipocrisia ingênua; por último, temos Edgar, que de todos me parece ser o mais razoável, o racional e o mais altruísta. Cada um desses adjetivos com que os dediquei representa o que eles exemplificam da consciência humana. Aqui na narrativa separados, em cada um de nós, leitores, juntos, separados, concordando, lutando entre si.

Não sei até que ponto posso traçar um paralelo entre os personagens e a consciência humana. Se aceitarmos Nelly como a representação da própria autora e formos mais a fundo nessa busca por traços da consciência humana que ecoa na história contada por Nelly podemos achar um bom tema para artigo literário. A autora que fragmentou sua consciência em um romance. Mas, pensando bem, não é assim mesmo que acontece o milagre da criação (literária)?

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